CARNAVAL: a Babilônia das ilusões

21/02/2012 17:59

 

 

 

No contexto das chamadas festas populares do Brasil, o Carnaval é, sem sombra de dúvidas, a que recebe mais apoio e exibe maior projeção. Os motivos pelos quais uma prática tão controvertida obteve e ainda obtém tamanho sucesso diante da população brasileira passa por diversos aspectos, que vão muito além da premissa pragmática de que "o povo gosta de carnaval". Em se tratando de Brasil, nada é tão simples e até mesmo o chamado gosto popular, em geral possui raízes muito obscuras e polêmicas do que se possa imaginar. É disso que trata o presente artigo e esperamos contar com a máxima atenção do leitor.

 

O termo "Carnaval"

 

Estudiosos divergem quanto a origem do termo Carnaval. Para uns, a palavra vem de CARRUM NAVALIS, os carros navais que faziam a abertura das Dionisías Gregas nos séculos VII e VI a.C. Uma outra versão é a de que a palavra Carnaval surgiu quando Gregório I, o Grande, em 590 d.C. transferiu o início da Quaresma para quarta-feira, antes do sexto domingo que precede a Páscoa. Ao sétimo domingo, denominado de "qüinquagésima" deu o título de "dominica ad carne levandas", expressão que teria sucessivamente se abreviado para "carne levandas", "carne levale", "carne levamen", "carneval" e "carnaval", todas variantes de dialetos italianos (milanês, siciliano, calabres, etc..) e que significam ação de tirar , quer dizer: "tirar a carne" A terça-feira. (mardi-grass), seria legitimamente a noite do carnaval. Seria, em última análise, a permissão de se comer carne antes dos 40 dias de jejum da Quaresma. Popularmente, porém, a expressão passou a ser livremente interpretada como "A festa da carne", dando à mesma uma conotação não apenas culinária, mas sobretudo de permissividade moral.

 

Aspectos Históricos

 

A história do Carnaval começa há mais de 4 mil anos antes de Cristo, com festas promovidas no antigo Egito, como as festas de culto a Ísis. Eram principalmente eventos relacionadas a acontecimentos religiosos e rituais agrários, na época da colheita de grandes safras. Desde essa época as pessoas já pintavam os rostos, dançavam e bebiam. Há também indícios de que o Carnaval tem origem em festas pagãs e rituais de orgia. Em Roma, as raízes deste acontecimento estão ligadas a danças em homenagem ao Deus Pã e Baco, eram as chamadas Lupercais e Bacanais ou Dionísicas. Uma análise histórica desses eventos mostra de fora surpreenente a incrível semelhança com os excessos característicos do carnaval.

Com o advento do monopólio romano sobre o cristianismo e o surgimento da Igreja Católica, houve uma tentativa de ser conter os excessos do povo nestas festas pagãs, criando um elo sincrético, como forma de adaptação do carnaval à igreja. Uma solução foi a inclusão do período momesco no calendário religioso. Antecedendo a Quaresma, o Carnaval ficou sendo uma festa que termina em penitência na quarta feira de cinzas. Os católicos costumavam iniciar as comemorações do Carnaval na época de Natal, Ano Novo e festa de Reis. Mas estas se acentuavam no período que antecedia a Terça-feira Gorda, chamada assim porque era o último dia em que os cristãos comiam carne antes do jejum da quaresma, no qual também havia, tradicionalmente, a abstinência de sexo e até mesmo das diversões, como circo, teatro ou festas. A força de suas origens, porém, tiveram muito mais poder do que a própria tradição eclesiástica, tornando essa tentativa de adaptação num grande fracasso, onde predominou e se acentuou ainda mais as orgias e violências já comuns a essa respectiva festa.

Na Idade Média, predominavam nos festejos de Carnaval os jogos e disfarces. Em Roma havia corridas de cavalos, desfiles de carros alegóricos e divertimentos coletivos como a briga de confetes pelas ruas. O baile de máscaras foi introduzido pelo papa Paulo II, no século XV, mas ganhou força e tradição no século seguinte, por causa do sucesso da Commedia dell'Arte. As mais famosas máscaras são as confeccionadas em Veneza e Florença, muito utilizadas pelas damas da nobreza no século XVIII como símbolo máximo da sedução e poder sexual.

Datam dessa época três grandes personagens do Carnaval. A Colombina, o Pierrô e o Arlequim tem origem na Comédia Italiana, companhia de atores que se instalou na França pra difundir a Commedia dell'Arte. O Pierrô é uma figura sentimental e romântica. É apaixonado pela Colombina, que era uma caricatura das antigas criadas de quarto, sedutoras e volúveis. Mas ela é a amante de Arlequim, rival do Pierrô, que representa o palhaço farsante e cômico. Portanto, é uma tradição que eleva a influência da traição e da deslealdade nos relacionamentos.

Na Europa um dos principais rituais de Carnaval foi o Entrudo. A palavra vem do latim e significa início, começo, a abertura da Quaresma. Existe desde 590 d.C., quando o carnaval cristão foi oficializado. O povo comemorava comendo e bebendo para compensar o jejum. Mas, aos poucos, o ritual foi se tornando bruto e grosseiro e o máximo de sua violência e falta de respeito aconteceu em Portugal, nos séculos XVII e XVIII. Homens e mulheres atiravam água suja e ovos das janelas dos velhos sobrados e balcões. Nas ruas havia guerra de laranjas podres e restos de comida e se cometia todo tipo de abusos e atrocidades. Sem sombra de dúvida, todos os atos deploráveis que ainda se avistam no moderno carnaval, derivam dessa sua forte influência histórica do Entrudo.

Devido à forma de comportar no Carnaval. há quem imagine sua origem na cultura trazida pelos escravos. Mas o carnaval brasileiro se origina no Entrudo português e aqui chegou com as primeiras caravelas da colonização. Recebeu também muitas influências das mascaradas italianas e somente no século XX recebeu elementos africanos, considerados fundamentais para seu desenvolvimento. Com essa mistura de costumes e tradições tão diferentes, o Carnaval do Brasil é um dos mais famosos do mundo e, todos os anos, atrai milhares de turistas dos cinco continentes.

Mais precisamente, o Entrudo desembarcou no Brasil em 1641, na cidade do Rio de Janeiro. Assim como em Portugal, era uma festa cheia de inconveniências da qual participavam tanto os escravos quanto as famílias brancas. Após insistentes intervenções e advertências da Igreja Católica, os banhos de água suja foram sendo substituídos por limões de cheiro, esferas de cera com água perfumada ou água de rosas e bisnagas cheias de vinho, vinagre ou groselha. Esses frascos deram origem ao lança-perfume, bisnaga ou vidro de éter perfumado de origem francesa. Criado em 1885, chegou ao Brasil nos primeiros anos do século XX. Também substituindo as grosserias, vieram então as batalhas de flores e os desfiles em carros alegóricos, de origem européia.
Uma das figuras mais marcantes da festa é a do Rei Momo, inspirada nos bufos, atores portugueses que costumavam representar comédias teatrais para divertir os nobres. Simbolicamente, as chaves da cidade são passadas para o Rei Momo diretamente das mãos da maior autoridade local, dando assim plena liberdade para todas as práticas comuns a esse período.

 

As estatísticas do Carnaval

 

Todos os anos, findo o período carnavalesco, as glamourosas matérias sobre os desfiles de escola de samba e da presumida alegria nacional são substituídas por outras absolutamente deploráveis e tristes que apontam para inúmeras tragédias ocorridas na forma de acidentes nas estradas, homicídios por armas branca e de fogo, estupros, lesões corporais leves e graves, furtos e roubos e demais mazelas de igual ou pior teor. Alguns institutos e ONG's denunciam que apenas uma terça parte desses acontecimentos são divulgados, uma vez que a grande maioria da imprensa nacional está atrelada a poderosos grupos empresariais que lucram fortunas com o carnaval e conspiram para que suas vísceras trágicas não cheguem ao conhecimento do grande público.

Duas práticas são predominantemente intensificadas nesse período: os consumos de álcool e drogas ilícitas. Muitos jovens que jamais consumiram tal coisa, passam a fazer uso delas. Outras que já as consumiam, são estimulados pelo ambiente a recorrerem a doses maiores, chegando inclusive a situações fatais de overdose. Todos os crimes citados acima, de forma direta ou indireta, estão ligados ao álcool ou às demais drogas.

 

O impacto familiar

 

Todos os estudos sociológicos respeitáveis e já publicados no mundo, ainda que movidos por pontuais distinções e elementos de contradição, denotam a família como o principal ponto de referência para a sustentabilidade social. Isso implica numa clara constatação, também já comprovada por meio de estudos científicos, que todos os abalos familiares promovem por consequência o caos generalizado.

O Brasil é um país que enfrenta grandes problemas sociológicos, como a violência doméstica, o abandono e aborto de crianças, a multiplicação dos chamados meninos de rua e sua decorrente delinquência juvenil, assim como outras formas de criminalidade derivadas. Isso tudo aponta para a desestrutura dos lares.O carnaval exerce um papel profundo nesse aspecto.

Os índices de consumo de drogas nesse período exercem um peso devastador nos lares, com consequências que vão se alastrar por todo o restante do ano. Fora isso, os índices de separação entre casais, por conta das práticas unilaterais de deslealdade, também são gigantescos. E uma família desfeita sempre deixa como legado marcas emocionais profundas, que são levadas pelo resto da vida.

 

O aspecto excludente do Carnaval

 

Alguém já se perguntou quais seriam as verdadeiras razões que levam o poder público em suas três esferas a investir pesado no Carnaval? Há uma demanda global por mais recursos nas áreas de educação, saúde, moradia, emprego, geração de renda e saneamento básico, que em geral são sempre insuficientes e ineficazes para o atendimento das necessidades básicas do cidadão.

Contudo, os governos nunca negam recursos para o financiamento de blocos e escolas de samba, para a construção, reforma e manutenção de passarelas do samba e inclusive para o pagamento de cachês milionários a artistas oportunistas que engordam ainda mais o seu aviltante faturamento nesse período

O simples fato de haver também descaso para as reais necessidades de nossa gente e uma suspeita liberalidade para abrir os cofres a favor do Carnaval, já sinaliza para uma constatação óbvia de existe algo de profundamente errado nisso tudo. Algo que agride a cidadania, que fere a constituição e que desrespeita as prioridades de um povo.

O Carnaval, na realidade, é uma fértil fonte de lucros para uma minoria oportunista. Não são os ricos desse país que lotam as ruas e passarelas. Eles aproveitam os dias de folga para ostentarem suas posses em viagens pelo primeiro mundo e se encantam com espetáculos teatrais, enquanto a plebe nacional se degrada por iniciativa própria e se engana sob o entorpecimento desses poucos dias, sorrindo com sua boca sem dentes, esquecendo sua panela vazia e atribuindo a esse esquecimento uma espécie de alívio para os seus dramas.

Não são os ricos que vestem os trajes luxuosos das escolas de samba. Até mesmo a linda atriz que desfila como rainha, está ganhando para aquilo ou investindo na possibilidade de obter a glória da mídia e se projetar a ponto de receber um convite para estampar alguma revista masculina. Os únicos que estão ali por dedicação, que nada ganham para passar o ano inteiro trabahando e que voltam de madrugada para suas favelas e sua mesa vazia, são justamente as maiores vítimas do Carnaval: os pobres. E quanto aos poucos ricos que se avistam nesses eventos, são exatamente os que lucram com eles.

 

O lado mais obscuro do Carnaval

 

Quando o prefeito de uma cidade entrega as chaves da mesma para o rei momo, ele não tem idéia do impacto espiritual que esse gesto simbólico representa. É como se fosse um cheque em branco nas mãos do mal generalizado e as cenas que sucedem tal ato solene, provam claramente a veracidade desse argumento.

A luz é tão real quanto a escuridão. O bem é tão plausível quanto o mal. Por isso, independente das concepções filosóficas, das crenças ou descrenças promovidas pela intelectualidade humana, há fatos paralelos aos acontecimentos visíveis e ambos se misturam na proporção em que perde-se o discernimento diante de tal realidade. O que há de mais obscuro e trágico no carnaval não é aquilo que se vê no carnaval, mas o que se esconde por trás dele. Algo que o álcool não permite ver, que o transe festivo não expõe, que a degeneração e a orgia não mostram e que a mídia não estampa em horário nobre.

 

Quem são os culpados?

 

Eu tenho absoluta convicção de que assim como o amor, a paz e a solidariedade são dádivas de Deus, o carnaval é uma herança do mal. Mas o mal não é uma energia mórbida e certamente influi na sociedade por meio de seus instrumentos. E no caso em questão, quais seriam esses instrumentos?

1. A igreja católica, que abraçou, absorveu e adaptou o carnaval, assimilando em seus fiéis inclusive a idéia de que é possível conciliar a fé cristã com as hediondas práticas carnavalescas. É lógico que o clero não aprova tamanhos excessos, mas também não se manifesta publicamente em sua condenação e esse silêncio é sinal inequívoco de um reconhecimento de culpa, por um erro histórico, hoje praticamente impossível de ser reparado.

2. A mídia, que promove campanhas que favorecem o carnaval, dando coberturas, passando uma imagem maquiada dos fatos, suprimindo as mazelas e lançando nas mentes despreparadas a perigosa idéia de que seja absolutamente correto participar de tal coisa. E não nos esqueçamos que isso não é gratuito, pois as emissores faturam milhões com o carnaval - razão pela qual o promovem, mesmo em detrimento da destruição popular.

3. O poder público, que investe pesado no carnaval. A política do pão e circo, herdada do império romano, ainda rende bons frutos para o sofismo e a calhordagem política que há nos poderes vigentes. Manter o povo pulando e "feliz" é uma forma de domá-lo, de cegá-lo, de ensurdecê-lo e de escravizá-lo. A folia carnavalesca não deixa espaço para a consciência política, para a reflexão dos problemas nacionais e pessoais. o folião esquece que não tem comida em casa, que está sem emprego, que não possui recursos para tratar seu problema de saúde, que mora em condições sub humanas e que está enriquecendo ainda mais aqueles que o exploram. Educar um povo é criar um monstro que pode voltar-se um dia contra quem o educou. Financiar festas como o carnaval é uma maneira de impedir que esse mostro um dia se levante. Triste e nojenta realidade essa nossa!

4. Alguns seguimentos evangélicos, que uma vez já completamente absorvidos pela influência do mundo, passam a seguir o exemplo do catolicismo primitivo, estimulando adaptações do carnaval ao meio cristão. Blocos, trios elétricos e shows gospel em meio ao carnaval, ainda que sob o subterfúgio de que sejam evangelísticos, são apenas o sintoma claro da covardia de alguns evangélicos nominais, que gostam do carnaval, que querem dele participar, mas que usam dessa máscara para não assumirem sua verdadeira intenção. Nenhum cristão que honre sua fé, sob qualquer argumento, poderia se envolver com um ambiente tão anti Deus quanto o carnaval.

5. A intelectualidade nacional, que sempre se atrelou ao carnaval de forma pública e incontestável. O péssimo exemplo de artistas, escritores, dramaturgos, poetas, compositores e jornalistas que aderem ao carnaval e que por serem formadores de opinião, quando não ídolos de muitos, tem servido de forma contundente para a solificação ainda maior desse costume. Todo crédito deve ser dado a quem se acha enganado pelas ilusões do carnaval, quando não teve acesso à educação e ao esclarecimento histórico de nossas realidade. Porém o mesmo não se pode dizer de intelectuais, com seus tentos títulos e seu amplo conhecimento dos fatos, que preferem priorizar sua ambição financeira e seu lucro com a miséria nacional.

 

Uma última reflexão

 

Esse pode ter parecido ser um discurso religioso. Mas quero acentuar que não foi. Sou um cristão confesso e muito bem resolvido, mas asseguro que de religioso eu não tenho nada.

Meu olhar sobre a realidade carnavalesca é amplo, é holístico e se arvora de constatações muito maiores do que tudo que a tradição religiosa poderia reivindicar. Na verdade, como digo acima, a religião tem culpa nisso tudo e portanto, pouca moral para questionar os fatos.

Nosso discurso é humanitário, é amoroso e pretende ser doador de luz às consciências.

Carnaval não é cultura. Carnaval é bacanal a céu aberto, é orgia institucionalizada. É conspiração promovida por empresas,mídia e poder público, com vistas à manutenção de seus lucros e às custas da inércia e do empobrecimento espiritual, intelectual e financeiro de nossa gente.

Eu sei que esse não é o pensamento da maioria. Mas que disse que a verdade costuma estar ao lado da maioria?

 

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