CRESCIMENTO DA IGREJA: CHEGAMOS AOS DIAS DO VALE TUDO?

19/10/2013 02:12

 

 

"Santifica-os na verdade; a Tua palavra é a verdade."

(João 17:17)

 

Durante séculos a igreja manteve-se firme contra toda forma de entretenimento mundano, reconhecendo-o como um dispositivo para se perder tempo, um refúgio contra a perturbadora voz da consciência, um plano para se desviar a atenção de contas quanto à moral. Por manter sua posição, ela sofreu abusos por parte dos filhos deste mundo. Ultimamente, entretanto, ela se cansou de ser abusada e simplesmente desistiu da luta. Parece ter firmado a posição de que, se não pode vencer o deus do entretenimento, o melhor que pode fazer é unir suas forças às dele e aproveitar o máximo de seus poderes. Por isso, contemplamos hoje o assombroso espetáculo de milhões de reais sendo vertidos no negócio nada santo de prover entretenimento mundano aos chamados filhos dos céus. O entretenimento religioso está, em muitos lugares, rapidamente desalojando as sérias coisas de Deus. Muitas igrejas, em nossos dias, se tornaram nada mais que casas de show, onde “produtores” de quinta categoria mascateiam suas mercadorias de baixo valor com plena aprovação dos seus líderes evangélicos, que chegam até mesmo à blasfêmia de citar textos bíblicos para justificar tal delinquência. Espetáculos de dança sendo chamados de ministério, baladas gospel, shows gospel, até mesmo blocos carnavalescos que se intitulam evangélicos e fingem conseguir enganar alguém com sua falsa argumentação evangelística. Os exemplos são muitos. As aberrações são incontávis. E é difícil acharmos alguém que ouse levantar a sua voz contra isso. Difícil, mas não impossível, pois com toda santa e sincera humildade cabível a um singelo filho de Deus, nós aqui estamos com esse específico propósito.

 

A Igreja reduzida ao status de um bar

 

O pragmatismo radical da “abordagem amigável” rouba da igreja o seu papel profético. Transforma-a em uma organização popular, que recruta seus membros através de oferecer-lhes um ambiente de calor humano e amizade, no qual as pessoas comem, bebem e são entretidas. A igreja acaba funcionando mais como um clube do que como uma casa de adoração. 


 

O cenário é construído em torno de pressuposições que são claramente antibíblicas. A igreja não é um clube à busca de novos sócios. Não é o barzinho do bairro onde a vizinhança se reúne. Não é um grêmio estudantil à procura de calouros. Não é um centro comunitário onde se realizam festas. Não é um clube de campo para as massas. Não é um comitê eleitoral onde os problemas da comunidade são discutidos. Não é uma casa de espetáculos para a celebração do talento artístico de quem quer que seja. Não é uma corte judicial para corrigir as injustiças sociais. Não é um fórum aberto, ou uma convenção política, ou até mesmo uma cruzada evangelística.

 


A igreja é o corpo de Cristo (I Coríntios 12.27), e as reuniões da igreja são para adoração e instrução. O único alvo legítimo da igreja é “o aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo” (Efésios 4.12) – crescimento vital, não apenas expansão numérica.

 

A ideia de que as reuniões da igreja deveriam ser usadas para encantar ou atrair os não-cristãos é um conceito relativamente novo. Nas Escrituras, não há qualquer sugestão quanto a isso; aliás, o apóstolo Paulo falou da presença de incrédulos na igreja como um evento excepcional (I Coríntios 14.23). Hebreus 10.24,25 indica que os cultos da igreja são para o benefício dos crentes e não dos incrédulos: “Consideremo-nos também uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras. Não deixemos de congregar-nos”. 

 

Atos 2.42 mostra-nos o padrão que a igreja primitiva seguia, quando se reunia: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações.”. Observe que adorar a Deus e encorajar os irmãos eram as prioridades da igreja primitiva. A igreja se reunia para a edificação e se dispersava para evangelizar o mundo.

 

Nosso Senhor comissionou seus discípulos para evangelizarem da seguinte forma: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações” (Mateus 28.19). Cristo deixou evidente que a igreja não deve esperar que o mundo venha ou que deve convidá-lo a vir às suas reuniões; Ele mostrou com clareza que a igreja deve ir ao mundo. É a responsabilidade de todo crente. Temo que uma abordagem que enfatiza a apresentação do evangelho de uma forma facilitada dentro da igreja, exime o crente de sua obrigação pessoal de ser uma luz no mundo (Mateus 5.16).

 

Novamente ressaltamos que a proclamação da Palavra de Deus deve ser central na igreja (I Coríntios 1.23; 9.16; II Coríntios 4.5; I Timóteo 6.2; II Timóteo 4.2). “Quer seja oportuno, quer não”, é tarefa dos ministros de Deus corrigir, repreender, exortar com toda a longanimidade e doutrina (II Timóteo 4.2). O pastor que coloca o entretenimento acima da pregação bíblica e vigorosa abdica da responsabilidade primária de sua função, ou seja, apegar-se “à palavra fiel, que é segundo a doutrina, de modo que tenha poder tanto para exortar pelo reto ensino como para convencer os que o contradizem” (Tito 1.9).

 

A estratégia da igreja nunca foi de apelar ao mundo utilizando os termos do mundo. Não se espera que as igrejas estejam a competir pelo consumidor no mesmo nível que uma cerveja famosa ou uma grande rede de televisão. Não há como estimularmos crescimento genuíno via persuasão fascinante ou técnicas engenhosas. É o Senhor quem acrescenta as almas à igreja (Atos 2.47). Metodologias humanas não podem acelerar ou suplantar o processo divino. Qualquer crescimento adicional que venha a produzir não passará de uma pobre e infrutífera imitação.

 

Crescimento artificial ou não-natural, no reino biológico, pode causar deformação – ou pior, câncer. Crescimento sintético, no reino espiritual, é igualmente doentio e letal.

 

Seria o crescimento uma questão de técnica?

 

 

A filosofia que une técnicas de marketing com a teoria de crescimento da igreja resulta de uma péssima teologia. Pressupõe que se você empacotar adequadamente o evangelho, as pessoas serão salvas. Esta ideia tem suas raízes no humanismo religioso, que faz da vontade humana, e não do Deus soberano, o fator decisivo na salvação. Fala da conversão como uma “decisão por Cristo”. Essa linguagem e doutrina começaram a permear o ministério moderno. O alvo do ministério norteado por marketing é uma decisão humana imediata, em lugar de uma transformação radical do coração, operada pelo Deus Todo-Poderoso, por meio da obra do Espírito Santo em trazer convicção e através da verdade da Palavra. Uma crença sincera na soberania de Deus na salvação findaria muitas das tolices que hoje acontecem nas igrejas.

 

Além do mais, toda essa abordagem de agência publicitária com relação à igreja corrompe o cristianismo e atende às concupiscências carnais que estão arraigadas na estrutura do sistema mundano (I João 2.16). Temos uma sociedade repleta de pessoas que desejam o que querem, quando o querem. Estão presos a seu próprio estilo de vida, recreação e entretenimento. Querem conforto, felicidade e sucesso. E, quando a igreja apela a esses desejos egoístas, apenas alimenta um fogo que impede a verdadeira piedade.

 

A igreja se acomodou à nossa cultura ao inventar um tipo de cristianismo onde o tomar a cruz tornou-se opcional, ou até mesmo, impróprio. De fato, muitos dos membros das igrejas do ocidente creem que servirão melhor a Deus se confrontarem o mundo o menos possível.

 

Tendo incorporado os valores do mundo, o cristianismo em nossa sociedade encontra-se moribundo. O mundanismo e a autoindulgência vêm sutil, porém efetivamente, devorando o coração da igreja. O evangelho frequentemente pregado em nossos dias está tão distorcido que oferece o crer em Cristo como nada mais do que um simples meio para o contentamento e a prosperidade. O escândalo da cruz (Gálatas 5.11) tem sido sistematicamente removido, de modo que a mensagem se torne mais aceitável aos incrédulos. A igreja, de alguma forma, concebeu a ideia de que pode declarar paz com os inimigos de Deus. 



E quando, em cima disso, roqueiros punk, ventríloquos, palhaços, atiradores de facas, lutadores profissionais, levantadores de peso, comediantes, dançarinos, malabaristas de circo, artistas de rap, atores e celebridades do “Show Business” assumem o lugar do pregador, a mensagem do evangelho recebe um golpe catastrófico: “E como ouvirão, se não há quem pregue?” (Romanos 10.14) 



Creio que podemos ser criativos e inovadores quanto à forma de apresentarmos o evangelho, mas precisamos Ter o cuidado de harmonizar nossos métodos com as profundas verdades espirituais que estamos procurando transmitir. É muito fácil trivializarmos a mensagem sagrada. Precisamos fazer com que a mensagem, e não o veículo em si, seja o cerne daquilo que desejamos comunicar ao auditório.

 

Não se precipite em abraçar as tendências das mega igrejas cheias de tecnologia. Não desdenhe a adoração e a pregação convencionais. Não precisamos de abordagens engenhosas para que as pessoas sejam salvas (I Coríntios 1.21). Precisamos apenas voltar a pregar a verdade e plantar a semente. Se formos fiéis nisso, o solo que Deus já preparou haverá de produzir fruto.

 

Mas, se a igreja não se voltar para o cristianismo bíblico, logo testemunharemos o fim de nossa influência em nome de Cristo. Todos se admiram em ver quão rapidamente a face de nosso mundo está se alterando. Ao mesmo tempo, poucos cristãos percebem quão assustadoramente rápido a igreja está caminhando rumo ao declínio. Podemos estar vivendo os últimos dias do evangelicalismo bíblico como força significativa em nossa nação. Não é fantasioso imaginar que daqui a uns vinte anos haverá missionários do mundo oriental vindo evangelizar os países ocidentais.

 

Admitir essa possibilidade me deixa profundamente preocupado. Nós que conhecemos e amamos a verdade precisamos ser a voz profética do nosso Deus e proclamar a santidade de seu nome. Precisamos exigir que qualquer esforço feito em nome de nosso Senhor manifeste também a integridade de sua natureza. Ele é “Santo, Santo, Santo” (Isaías 6.3) e precisa ser representado dessa forma. Qualquer outra coisa não é digna de sua grandeza, majestade e santidade. 

 

Que ninguém se sinta pessoalmente ofendido por nossas palavras e que Deus abençoe e inspire sua Igreja nesses turbulentos dias de flagrante apostasia.

 

 

 

 


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