Entre a fé mercantilista e a humildade bíblica

05/10/2014 23:47

 

 

“Portanto, eu, prisioneiro no Senhor, suplico-vos que andeis de modo digno

para com o chamado que recebestes,  com toda humildade e mansidão,

com paciência, suportando-vos uns aos outros em amor.” 

(Efésios 4.1-2)

 

Há muita diferença entre os dias de perseguição e a glória da liberdade social. As palavras do apóstolo Paulo, citadas acima, fizeram muito sentido para os cristãos vitimados pela fúria dos imperadores romanos ou pelas fogueiras e forcas da diabólica inquisição do catolicismo medieval. Mas, lamentavelmente, já não fazem para a livre e prestigiada igreja dos dias atuais.

 

Uma das atribuições do fogo é o seu poder de purificação. Isso explica porque nos dias mais adversos, o ser humano tende a optar pela humildade. Mas em cessando as labaredas da tribulação e em chegando as águas revigorantes da tranquilidade, poucos são os que não cedem à tentação da arrogância, da vaidade e do egoísmo.

 

Um breve comparativo que fizermos sobre a postura cristã daqueles que vivem sob regimes políticos totalitários e hostis à sua fé para com os que vivem em nações democráticas e com direitos constitucionais à liberdade religiosa e de expressão, mostra com absoluta clareza o quanto a natureza humana tira proveito da paz externa para deliberar sua decadência interior.

 

É justamente do chamado "mundo livre" que nas últimas décadas surgiram dentro do seio cristão, dois perigosos movimentos, que nesse presente artigo, gostaríamos de ressaltar e denunciar:

 

O decadente modismo teológico

 

Em fins dos anos 80 e sobretudo por toda a década de 90, assistimos a uma explosão de movimentos teológicos, absurdamente vazios do que seja a verdadeira teologia e claramente direcionados para um sincretismo filosófico / esotérico e uma visão mercadológica da fé. Concepções como o chamado modelo G12, que vislumbra a igreja sob células, deram uma conotação de crescimento baseada nas mais aviltantes técnicas de mercado de rede, onde os números reproduzidos fazem parte de uma manipulação retórica, que lhes dão a aparência de desenvolvimento da igreja. Não é de admirar que tenha surgido a partir daí a conjuntura do "supercristianismo", atribuindo ao servo "seus direitos de reinvindicações" sobre o Senhor. Assim, ensina-se o cristão a determinar, a exigir, a declarar, a profetizar e a instituir, pois há poder soberano em sua palavra. Até o verbo de Deus passa a ser dividido nas perspectivas de "Rhema" ou "Logos", tendo assim a brecha para que se relativize os absolutos bíblicos e se possa legitimar as "revelações" e "visões" que a partir de então se alastraram e desfiguraram a igreja cristã, tornando-a na caricatura vazia que todos nós podemos assistir em dias atuais.

 

Desse modismo derivam crenças absurdas como o atrelamento dos conceitos de fé e riqueza / falta de fé e pobreza, a ideia de que mesmo aqueles que estão em Cristo possam viver sob maldições, assim como o já citado poder das determinações, que declaram isso ou aquilo, sob a certeza de que tal coisa ocorrerá.

 

Tenho visto Brasil a fora, muitos desses pregadores o tempo inteiro declarando palavras de cura e restauração para as cidades e o país, e, no entanto, o que assistimos é uma nação cada vez mais destruída pelas drogas, destroçada pela violência e corroída pela corrupção; sendo está última muitas vezes protagonizada por "políticos cristãos", eleitos em nome desses mesmos movimentos.

 

A cura de uma nação é um processo exaustivamente narrado em toda Bíblia e sua diretriz é simples: testemunho de vida, intercessão e evangelismo. A Igreja Primitiva (a que mais cresceu) não era regida por "visões e revelações". Havia caráter e justiça na vida de todos. Havia oração incessante. E havia obstinada determinação por ganhar almas. Esse foi o segredo do crescimento e ainda é, posto que as variantes humanas não implicam numa alteração na essência de Deus.

 

Graças ao modismo teológico, temos hoje uma igreja sem identidade, sem cara própria. Uma igreja, que por se desfigurar e esquecer sua origem abriu espaço para a mazela seguinte...

 

O evangelismo invertido

 

O atributo da palavra de salvação é apresentar ao coração perdido um caminho novo e alternativo para o resgate de sua alma. Mas não é isso que temos visto em dias atuais. A igreja moderna tornou-se "um compartimento gospel do mundo". Foi assimilada, aceitou adaptações e perdeu seu caráter de santificação. Em vez de ganhar o mundo - graças a um horrendo processo de contradições - acabou sendo engolida por ele.

 

Dentro desse contexto, vemos artistas profissionais fazendo shows e vendendo CDs e não mais levitas ministrando a adoração na presença de Deus. Vemos igrejas que se estabelecem em ruas de grande movimento e pontos comerciais estratégicos, com vistas a atrair público. Ficou no passado a visão missionária de chegar a uma região, lançar as sementes e ali lutar até ver o crescimento espiritual da Obra de Deus.

 

Vemos também a influência sociológica do mundo moderno determinando mudanças no padrão administrativo da igreja, com o surgimento do feminismo gospel e suas pastoras, assim como com a deflagração das novas "patentes" do egoísmo e vaidade humanos, que tornam a nomenclatura de pastor uma espécie de graduação mínima e dão origem aos bispos, apóstolos e patriarcas da igreja moderna, num show de narcisismo sem precedentes.

 

Não é a toa que tantos escândalos têm chegado ao conhecimento público e que a camada esclarecida da população passa a rotular de forma pejorativa o universo cristão evangélico. Não é a toa que já não vemos a autêntica manifestação do poder de Deus, como historicamente registrou-se nos dias de pioneirismo, onde prevalecia a fé e a humildade em suas mais puras e sinceras expressões.

 

A humildade é um dom sublime, que adorna o caráter e agrada a Deus. Ao contrário do que dizem "os profetas da prosperidade", Jesus não foi um aristocrata endinheirado. A cria de jumenta sobre a qual Ele entrou montado em Jerusalém não era a ferrari da época. Quão blasfemo e desrespeitoso é esse discurso!

 

Jesus, Filho de Deus, o próprio Deus, nasceu num estábulo, misturado a bichos, estercos e fenos. Poderia ter vindo numa linhagem abastada, mas veio de uma simples camponesa e um pobre carpinteiro. As raposas tinham seus covis e as aves seus ninhos, mas Ele não tinha nem aonde reclinar a cabeça.

 

Não obstante, Jesus era homem de gestos e palavras doces. Era conciliador. Não buscava glória e nem aplausos para si. Nunca se declarou Rei, mesmo sendo o maior de todos. Nunca reivindicou honras para si, mesmo sendo o único e real merecedor de toda honra e toda glória. E nos deixou milhões de exemplos de humildade através da sua forma de agir e conviver em sociedade.

 

Esse é o verdadeiro cristianismo. Não cabe arrogância nos arraiais de Deus. A vaidade humana não tem ingerência sobe a realidade da fé. E o fim de todo esse terrível erro será bem oposto a tudo que tem sido prometido nos luxuosos púlpitos pela boca falaciosa e impostora de seus propagadores.

 

 


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