Vale a pena ainda ser crente?

06/01/2015 02:00

 

 

 “Mas as sementes que caíram em boa terra são os que,

com coração bom e generoso, ouvem a palavra,

a retêm e dão fruto, com perseverança.”

(Lucas 8:15)

 

 

Sim, eu sei que muita coisa mudou desde a aurora irrompida nos dias apostólicos. Sei que são poucos aqueles que fazem jus às chagas de Cristo e já é mínimo o número dos que seguem o exemplo de humildade legado pelo Carpinteiro de Belém.

 

O impensável surgiu como moda e hoje fala mais alto que a sã doutrina. Apóstolos, decretos apostólicos, crentes convictos de que podem determinar ou profetizar acontecimentos futuros, feministas contrariando a Bíblia e exercendo o ministério pastoral, artistas ávidos por fama e dinheiro usurpando o sagrado ofício musical, negociadores recriando as indulgências através de campanhas e barganhas com o nome de Deus, heresias claramente inspiradas no sincretismo adquirindo status de “Visão”, igrejas funcionando com lógica de gerenciamento empresarial e de mercado de redes, pastores transitando e comungando  com os porões sujos do politiquismo e até mesmo movimentos dentro da igreja que defendem o fim da igreja. Sim, eu admito. Vivemos um caos sem precedentes.

 

Quando eu aceitei a Cristo, ainda era muito jovem, no fim dos anos oitenta.  Andando pelas ruas da minha cidade, vez por outra, ouvia certos comentários sobre “os crentes”, como éramos chamados. Ou os protestantes, como também éramos conhecidos. Lembro-me bem de como os “outros”, ou os não protestantes olhavam para nós… Andávamos na contramão; éramos diferentes; vivíamos de forma diferente; éramos facilmente identificados. Havia algo diferente, marcante, característico. Não frequentávamos festas seculares, nem consumíamos álcool ou nicotina; não participávamos de passeatas, nem tumultos de qualquer ordem, não fazíamos apostas ou jogos de azar, não estávamos na “moda”, inclusive na forma de nos vestir, a decência e a moderação era uma preocupação constante e um compromisso diante de Deus;  éramos somente os antiquados crentes. No domingo, dia nacional do descanso das famílias e feriado semanal para os deleites da maioria, era o dia em que os crentes iam à igreja. Não havia negociação: era o Dia do Senhor e pronto. Domingo era dia de crente ir à igreja e nada mais poderia interferir. Bem, se éramos discriminados e odiados por nossa postura protestante aos pecados do paganismo circundante, por outro lado éramos respeitados no mínimo pela postura ética e por termos famílias ajustadas com valores firmes.

 

Hoje dificilmente um crente é respeitado e reconhecido como modelo de ética e conduta; hoje eu tenho vergonha não de ser crente, óbvio, mas de me classificarem como um evangélico. Explico: Não pelo termo em si, nem pela história do evangelicalismo em nossa nação, e nem pelo que o termo significava há algumas décadas, mas pelo que ele significa hoje. O evangélico de hoje é aquele que pode estar na igreja e no trio elétrico em pleno carnaval, por exemplo; é aquele que pode freqüentar um culto de vez em quando e se sustentar com dinheiro mal adquirido; o  moderno evangélico não tem cara, não tem identidade, não se parece com nada; Ele pode estar em qualquer lugar e fazer qualquer coisa e jamais será identificado como um crente. É uma luz debaixo do alqueire e uma cidade edificada no subsolo de algum lugar. Em um mundo de tamanha treva como esse em que vivemos, uma mínima chama iluminará grandes espaços. Mas poucos se dispõem em ser essa chama. Estão preocupados em adquirir prosperidade e desonram a linda história daqueles que semearam o evangelho neste país .

 

Sou do tempo e não faz muito tempo, em que ser crente (ser cristão), representava muitos conceitos e preceitos. Muito embora, as pilhérias ocorressem, ser crente personificava uma mudança e reorientação expressiva do caráter.



A postura adquiria primazia e relevância. A honestidade e o compromisso com a justiça. O inconformismo com as facetas múltiplas do pecado. A decidida inserção numa interrelação de práxis comunitária. A simplicidade e singeleza de partir para uma identificação aberta e transparente com Cristo. 



Sou do tempo, sou dos domingos nas igrejas com os seus corais, com cânticos regidos pela Bíblia, com a prédica focada no epicentro da vida do crente, que é Jesus.

 

Sou, sim e sim, do tempo das irmãs de cabelos branquíssimos como alavancas dos círculos de oração, dos grupos de jovens e adolescentes, da mocidade, do evangelismo, da manifestação dos dons a fim de inocular a genuína esperança, das manifestações retumbantes da Graça nos combalidos e infortunados.



Sem qualquer nostalgia, longínquo de urdir um discurso idílico, devo reconhecer os erros, as ambiguidades, as rupturas institucionais, as dissenções ministeriais e outros pormenores. Mas ainda assim, ser crente servia de fronteira entre a proposta de um estilo de vida relativista, diluído na heresia moderna, enxovalhada por uma libertinagem infame, subjugada por uma filosofia utilitarista e predadora do ser humano.



Em outras palavras, ser crente trazia à baila uma alternativa, uníssona e unipolarizadora, Cristo Jesus, o DEUS-ser humano, amigo e companheiro. Isto engendrava e eclodia o diferencial dentro de um contexto social, cujas conjunturas e superestruturas urbanas eram o espelho de um mundo sem valores salutares e profícuos. Ora, essas palavras me enchem de saudades de uma igreja que estava distante da caricatura de si própria, que hoje se tornou.



Ultimamente, estamos diante de uma avalanche de rótulos, invólucros, estilos, paradigmas, verbetes e mutações. Agora (diferente de ontem), ser chamado de crente significa uma injúria, um denegrir da moral e dos bons costumes. O evangelho se foi e em seu lugar temos o gospel, o cristianismo pós-moderno, os ditos contestadores inexoráveis da Igreja, os apologistas de mudanças e reformas nos seios da Igreja, mas, tetricamente, nada procedem no tocante a trabalharem por tais mudanças. Exceto aquelas que abriram gentilmente as portas da igreja para as heresias e o mundo, os quais dela já não querem mais se retirar.



Cumpre salientar, soterramos o ser crente, o ser entranhado ao Deus da fé lúdica, do amor da convivência, da justiça criativa, da Graça abarcadora de todas as matizes da existencialidade humana. 

Para piorar os meandros desse presente Século XXI, deparamo-nos com um Cristo pauperizado, esgarçado por crendices e sincretismos, transformado em algo aberrante e funesto. Ou seja, não bastando todas essas colocações, falo do evangelho das prateleiras, das opções em cada esquina, de um Cristo funcionário dos meus dramas a pulverizar os meus problemas e só. Em nenhuma hipótese aceitamos o confronto, a alma despida, a santidade irrestrita e o governo da Bíblia, sem novidades. 



Tornamo-nos protagonistas de um cristianismo de máscaras, de pessoas abarrotadas nos templos e mantendo um estilo de vida furtivo e escuso. Vou mais além, templos, consagramos e enaltecemos artistas de púlpito, apóstolos-ícones, cantores mercenários e por ai vai. Ninguém aceita mais o servir ao próximo, a ser partícipe de uma vida comunitária e de interdependência, de parar de ficar a procura de expedientes do tão mecânico jargão - irmão ora por mim.



É de bom alvitre ressaltar, ser crente implica ser consciente e a par das fragilidades, vulnerabilidades e debilidades da sua história; ser crente constrói a ponte de amizades solidárias e fraternas, de se importar com o irmão ao seu lado, de pertencer a uma dimensão comunitária regida e sob a égide de Cristo; de objetar os discursos perniciosos de ser igreja no anonimato, na surdina, na massa atomizada, no faz de conta; de parar um pouco e aceitar o fato do quão dantesco e peripatético configura ser um cristão voltado aos seus próprios interesses.



Ser crente é ter a coragem e audácia de ponderar nas palavras, quando firmar comentários, muitas vezes, infames e insípidos, no tocante aos nossos irmãos de outras vertentes cristãs. Ser crente é crer, submergir-se no açude da Graça, Cristo Jesus, é ser consubstanciado pela alegria e pelo viço de imagem e semelhança de Deus, ser humano, alma, poesia, abraço, coração, razão, estética, cultura, ética e todos os demais arcos constituidores da vida abundante e da alma renascida. 

 

E antes que me acusem de pessimista, quero deixar bem claro: eu amo e creio nesse sublime missão que é ser crente. Mas obviamente, isso não vale nada para aqueles que estão brincando de igreja nas gangorras da prosperidade e só é revelado para os poucos que ainda honram essa sublime alcunha, que é ser crente!

 

 


Crie um site com

  • Totalmente GRÁTIS
  • Design profissional
  • Criação super fácil

Este site foi criado com Webnode. Crie o seu de graça agora!